Caso Valentina no Masterchef: o que eu tenho a ver com isso?

Caso Valentina no Masterchef: o que eu tenho a ver com isso?

Mais do que uma simples polêmica de internet, o assédio à participante mirim do Masterchef nos diz muito de nós mesmos.

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masterchef o masculino
Foto: Divulgação/TvBand

Sei que muito já foi dito sobre o tema, mas não posso deixar de dar minha opinião, principalmente em um site cujo público é majoritariamente masculino. O caso da pequena Valentina de apenas 12 anos no programa MasterChef Júnior, da emissora Band, nos faz pensar sobre nossa própria atitude – ou a falta dela – diante de situações que não deveriam mais acontecer.

A primeira pergunta que surge é a mais básica: se foram apenas alguns ‘caras’ que fizeram esse tipo de ‘piada’ nas redes sociais, o que eu tenho a ver com isso? Muitas coisas, meus caros. Talvez seja esta a resposta mais aproximada. E vou tentar me explicar melhor.

Antigamente o machismo nos levava a repetir certos bordões como o famoso “prenda suas cabras que meu bode está solto”, que sugere que as mulheres é que deveriam se ‘guardar’, não que os homens deveriam ter respeito ao corpo da mulher. Hoje em dia repetimos outros tantos, em alguns casos muito piores, entre eles o ‘inocente’ “se viu o penta já aguenta”, que não perde em nada para o comentário que deu início a toda essa discussão na internet “Sobre essa Valentina: se tiver consenso, é pedofilia?”.

Você pode estar pensando “certo, esse tipo de coisa não é brincadeira, mas ainda não entendi onde é que eu me encontro nisso tudo”. Nós estamos no lugar do homem que não percebe – ou finge não perceber – que isto acontece diariamente, que sabemos de casos praticados por conhecidos, mas fechamos os olhos e não interferimos.

Estamos também no lugar das pessoas que colocam a culpa na vítima (seja no caso do estupro ou de outra violência), sem perceber que uma criança não possui ainda consciência para querer seduzir alguém, argumento muito utilizado por quem quer justificar uma violência destas. E, ainda que ela realmente soubesse, seria também nossa culpa – homens e mulheres, adultos – que não nos demos conta ainda do quanto o excesso de informação pode ser prejudicial.

O sentimento que tenho é de que a sociedade perdeu totalmente os referenciais de valores, ao ponto de tentar justificar este tipo de comentário como algo bobo, relativizando a gravidade disso por ser apenas uma piada ou somente uma tentativa de ‘polemizar’ na internet. E não estou falando de moral, mas de princípios, de noção de que determinados discursos sustentam atitudes perversas e fazem muito mal para quem já sofre a própria violência.

Se falar de valores é uma questão muito subjetiva, difícil de mensurar ou de tratar em discussões por aqui, saiba que o artigo 217-A do Código Penal brasileiro prevê que “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos” é crime, com pena (reclusão) prevista de 8 a 15 anos.

Mas nem precisaria de lei, se soubéssemos que viver plenamente a infância é primordial para a construção da personalidade do adulto de amanhã. Ainda, que isso deveria ser de responsabilidade de todos, não apenas dos pais e, muito menos, da própria criança. Que este caso sirva de exemplo e que a campanha #PrimeiroAssédio possibilite avanços na luta contra este tipo de violência.

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