Você não passa de uma mulher

Você não passa de uma mulher

Por uma sociedade sem rótulos para as pessoas

0
COMPARTILHE
mulher o masculino
Foto: Shutterstock

Eu faço parte daquela geração meio de transição entre os avanços dos costumes e a convivência com alguns tabus. Era Malu Mulher revolucionando na TV aberta e as Senhoras Paulistas (era o nome de um grupo de mulheres que faziam a vez de “censoras” para preservar os chamados “bons costumes”) entrando com liminares contra a exibição da TV mulher, especialmente do quadro da Marta Suplicy, quando ela era sexóloga e não política, chamado Conversando Sobre Sexo.

Ou seja, vivíamos essa divisão clara entre o conservadorismo atrasado e os avanços de uma sociedade cansada de ver suas mulheres sendo subjugadas. E, ali no meio, estava a geração nascida nos anos 1970 crescendo e amadurecendo.

Leia também:

Será que um dia vamos nos cansar de sexo?

O fio terra na visão das mulheres

Para que sexo se existe pipoca com doce de leite?

Onde foram parar os pelos?

Tive amiga que casou virgem. Outras que engravidaram adolescentes. Outras que só namoravam em casa, outras que só não namoravam em casa. Havia ainda muita discussão e dedo apontado. ‘Fulana é galinha, fica com todo mundo’ ou ‘Fulana é esperta, faz galinhagem sem ninguém perceber’, ainda eram comentários recorrentes.

A geração que inventou o ‘ficar’, sim foi a minha Geração 80 quem empregou o termo pela primeira vez, se via dividida entre o condenável e o aceitável, diante das mudanças de comportamento iminentes. A ‘amizade colorida’, o mesmo que a atual versão ‘gourmetizada’ ‘sex friend’, era a saída para quem queria experimentar sexo sem compromisso, mas com algum envolvimento.

E assim fomos caminhando para os dias de hoje. Já temos a união estável entre gays, a prostituta se casando com o cliente e lançando livro, o famoso liberando sua fantasia com o travesti e as casas de swing bombando em diversos bairros onde moram as senhoras paulistas.

Mas o peso do estigma para nós mulheres parece não ter fim.

E eu vos pergunto: por que as mulheres ainda são divididas entre as ‘direitas’ e ‘devassas’ na cabecinha de alguns homens? E de algumas outras mulheres, o que é bem pior. Nas redes sociais e no mundo real, observo que a intolerância, pasmem, com os vestidos curtos, com a mulher que bebe ou que transa porque tem vontade, é coisa do presente.

“Você não passa de uma mulher”. O verso da canção parece emergir sem piedade do inconsciente coletivo: mulheres, comportem-se. Afinal, qualquer mulher não passa de uma mulher… Então, vamos sentar direito. Fingir que não vimos o colega de trabalho não tirar os olhos dos seus peitos durante a reunião. Manter-nos indiferentes ao grito de “eu te chupava toda!” que o cara do carro gritou, enquanto você esperava para atravessar no sinal…

Claro, assim é melhor. Se não, ainda corremos o risco de sermos chamadas de loucas.

Só que não.

Fico tão indignada com o discurso do candidato americano à presidência dos EUA quanto com o discursinho do tipo: ah, ela não vale nada, olha como se veste!!

Ou sentenças do tipo: “ela é mulher só para se divertir, eu a conheci numa noitada e os dois estavam bêbados”. Aí eu penso: os dois estavam na noitada, os dois estavam bêbados. Mas só a dama é a desqualificada. O valete é um príncipe deixando aflorar todo o hedonismo e a libido que lhe são permitidos.

Estou cansada disso, meus chuchus. Mulher é gente. Sente, tem desejos, gosta de sexo, tem direito de se esbaldar sem ser rotulada disso ou daquilo.

Entre um curso de princesa e a postura de recatada e do lar, saibam os senhores que tem muita mulher acordando 5h da manhã pra trabalhar, emendando o trampo com a faculdade e comprando uma lingerie nas Lojas Americanas pra usar com um bofe novo no sábado.

Tem outras que mandam um nude entre uma reunião com o vice-presidente de uma grande empresa e o relatório a ser entregue até o fim do dia. E tem ainda outras aproveitando a faxina na casa da patroa para fazer um self no espelho do banheiro, só para impressionar no Tinder.

Sem contar com aquelas que tomam conta dos filhos, ou dos pais que ficaram velhos, e ainda dão um trato no marido na cama. E mais aquelas que estão fazendo nada, aproveitando a vida. Viajando, se relacionando, errando, acertando, enfim: vivendo.

Então, quando estiver com uma mulher, apenas pegue-a de jeito e a trate bem. Todas não passam de mulheres. Que podem ser para casar, para trepar, para namorar ou só para conversar. Mas que exigem o seu respeito, assim como você também gosta de ser respeitado.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA