“Eu danço funk sem calcinha, mas a vagina ainda é minha”

“Eu danço funk sem calcinha, mas a vagina ainda é minha”

Estupro não é sexo, mesmo que a estuprada não passe de uma vadia a seus olhos

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cultura do estupro o masculino
Foto: Shutterstock

A frase do título eu li em um cartaz carregado por uma mulher, participante entre as milhares presentes em uma passeata para protestar contra a violência sexual. Precisamos diferenciar violência hedionda daquilo que o conservadorismo e o machismo insistem em tratar como depravação

Aprecidadora do sexo como sou, não posso deixar de comentar o recente caso de estupro coletivo de uma moça de 16 anos e a divulgação do ato na internet.

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Sou jornalista há mais de 25 anos. Já fiz matérias sobre crianças internadas em hospital porque ratos tinham comido seus pés, na favela onde moravam. Já cobri atentados terroristas. Mas pouca coisa me embrulhou o estômago tanto quanto esse caso recente que aconteceu no Rio de Janeiro.

E o mais assustador é ver homens e mulheres ‘relativizando’ o crime. A começar pelas comparações sem sentido entre a moça de 17 anos assassinada em uma via expressa no Rio, quando ia buscar a avó no aeroporto e a moça de 16 anos, molestada por 30 homens em uma favela.

As violências são tão cruéis. A diferença é que o segundo caso dificilmente acontecerá com um homem. Ou alguém aqui imagina aquele cara de 16 anos, que “já comeu” um monte de mulheres, que já é o garanhão orgulho do papai, sendo abusado por 30 mulheres em estado inconsciente, filmado e depois divulgada as imagens na rede?

E depois, se isso acontecer, imaginam alguém o desqualificando de “vagabundo”? Pois é, então, é só fazer o jogo da inversão e a gente chega rápido na questão de desigualdade de gêneros.

O mais equivocado texto que li a respeito dizia mais ou menos assim: “é muito mais difícil atropelar e matar inocentes se você não dirige bêbado; é muito mais difícil você esfolar ou quebrar o dedo do pé se você não joga futebol descalço” e por aí vai.

Esses argumentos simplistas são usados para defender que a vítima postava fotos com arma na mão, outras de sua bunda num shortinho e com palavras do tipo “hoje eu vou pro baile para dar pra vagabundo”.

É a massa conservadora, a maioria dela que não olha para seu próprio umbigo, ou para o tamanho de sua saia ou naipe dos ‘vagabundos’ travestidos de mauricinho com quem já foram pra cama. Porque, se há algo igual nesse mundo machista pra cacete, é o fato de 9 em casa 10 mulheres já terem ido para cama com um cara errado. Mas as pedras continuam sendo lançadas… e também por mulheres. Triste.

A massa inquiridora pega o perfil da vítima estuprada para acusá-la de ter favorecido a “probabilidade” com seu comportamento ‘condenável'(sic). Afinal, ela já teria feito orgias, dançado sem calcinha no baile funk e teria ido espontaneamente àquela noite trocar seu corpo por drogas.

Infelizmente, essas acusações, que parecem justas, estão erradas. Em se tratando de sexo, qualquer ato sem consentimento deixa de ser sexo para virar abuso, estupro ou violência.

Aviso aos juízes amadores que não funciona como a “lógica da probabilidade”, igual ao caso da bebida e direção e dos outros exemplos simplistas.

As estatísticas são alarmantes. Um estupro a cada 11 minutos no Brasil. De freiras a ‘moças comportadas’ (e o que é ser uma moça comportada? Talvez as roupas que nós vestimos e a nossa liberdade sexual seja considerada ‘ uma afronta aos bons costumes’ por conservadores ou fundamentalistas religiosos).

Por isso faço questão de aproveitar esse espaço aqui para ao menos tentar acender a luz da consciência. Pouco importa se a mulher violentada era uma bandida, puta, ousada, libertina, depravada, exibida. Se gostava de orgias ou era virgem aos 40 anos. Ou se dançava sem calcinha e tirava a camisa para mostrar os peitos.  O corpo ainda é dela.

A vontade de fazer sexo é ela quem decide. Assim como é no mundo dos homens.

A moça estuprada é uma marginal, traficante de drogas ou algo do gênero? Desculpa, amigo ou amiga, mas não cabe a você ou a ninguém julgá-la, condená-la e sentenciá-la.

Existe uma coisa chamada justiça ou poder judiciário, para puni-la, se for o caso. Não é você é seus valores pessoais que devem fazer isso.

Não existe lei da probabilidade em caso de estupro. Isso ocorre na escola, na igreja e até dentro de casa. Então, se um dos parceiros estava drogado, desacordado, não tinha consciência do que acontecia (caso de crianças) ou simplesmente não queria, não ê sexo. É crime. E a vítima será sempre vítima.

7 COMENTÁRIOS

  1. Como assim não importa se é bandida?? Você nãobpode somente julgar o “agressor” e esquecer os crimes da “vitima” anbos devem ser punidos igualmente de acordo com a lei que penaliza sua infração. Pra mim não se defende marginal, e seus argumentos me parecem muito femistas!!

  2. Muito da conduta “errante” dela foi ampliado nas redes sociais, mas independente disso, ela foi a vítima, dessa vez. Ela poderia ser, sim, uma pessoa péssima que fez péssimas escolhas, que brincou com o perigo, mas isso não justigica um estupro. A sociedade não entente que quem causa o estupro não é o estuprado, seja qual for a situação. É algo tão lógico, mas mesmo assim difícil de assimilar dado o machismo enraizado na nossa cultura. Mas o título do texto me fez pensar em outro ponto: porque discursos feministas fazem (aparentemente) pouco caso de letras misóginas de funk, cantadas por homens, tratando mulheres como objeto, que contribuem diretamente com a cultura do estupro?

  3. Nesta sua lógica, parar o carro na rua dá o direito para o ladrão roubar. Você deve ser punido assim como ele, afinal, você facilitou o roubo. Viu que você, com a desculpa de não defender o ‘marginal’ acaba fazendo exatamente isso, ao dividir a culpa do crime com a vítima? Entendemos que cada pessoa faz as suas escolhas na vida, mas que ninguém tem o direito de violar seu corpo. Estupro é crime e pronto. Qualquer ato sem consentimento é violência, passível de punição.

  4. No meu pensamento, ela não se dava respeito a si própria, mas jamais alguém deve violar o corpo da outra pessoa, não importa se ela tava se expondo de maneira vulgar ou seja la o que for, mesmo se ela fosse uma prostituta jamais deve se obrigar qualquer um a fazer o que não quer.
    Ela fazia apologia ao tráfico, ela era uma pessoa com os seus crimes, deveria responder por isso? Sim, mas isso não diminui a gravidade do que ela passou, primeiro dever ser julgado o estupro, que ela é uma vítima de estupro, e depois, se a justiça achar necessário, vai ao julgamento de seus crimes ( seja la qual for eles). E deve ser julgado separadamente, são dois casos diferentes, portanto dois julgamentos diferentes.
    Nada justifica o estupro, mesmo a pessoa não seja “boa”.

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