Nós somos os estupradores

Nós somos os estupradores

3
COMPARTILHE
estupradores o masculino
Foto: Shutterstock

Ah! Não gostou do título?! Generalizar não pode?!

Achou ruim ser posto no balaio da pior escória do mundo?!

Se sentiu “agredido”?!

Pois é: a realidade é verdadeiramente dura, especialmente quando se mora fora de uma bolha, longe de países das maravilhas.

Quer discordar? Tudo bem. Mas leia e, se ainda tiver coragem, portas abertas.

**Texto gentilmente cedido pelo músico Mário Feitosa, publicado no blog Covil da Discórdia.

Olhando de determinado ponto de vista, embora nossa espécie alcance duzentos mil anos de existência, não evoluímos em muitos pontos básicos.

Sob essa óptica, ainda em 2016, todo ser humano nasce (mais ou menos) condenado a padrões de etiqueta de convívio. São, de berço, doutrinados e espremidos para “caberem” nesses.

Um, em especial, é o que precisamos ter em pensamento se quisermos verdadeiramente entender o porquê do título e de nossa generalização como homens nesse balaio de monstros.

Estupradores são indivíduos que no auge de sua animalização se tornaram bestiais, insociáveis, não merecem mais o título de humanos (se me permitem afirmar). Roubam vidas sem, muitas vezes matar.

O problema reside numa questão muito simples: o quê move esses indivíduos a tal monstruosidade?

Bom, mais simples impossível: um sistema, muito dito, muito explicado, bem pouco entendido: Patriarcalismo.

Mulheres vêm usando o termo há anos, buscando explicar as causas e motivos de comportamentos agressivos, mas, como bons idiotas que gostamos de ser, preferimos nunca entender e transformar a realidade em chacota.

O espírito nasceu nos primórdios onde, para preservação das “castas”, “linhagens”, heranças, do “nobre” sangue do “nobre” senhor, as mulheres eram colocadas em um último degrau das escalas sociais (“Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, colocava a mulher abaixo dos escravos em sua definição de escala social).

Caso é: quanto difere nossa atual realidade disso?!

“Ah, mas eu nunca bati numa mulher. Nunca estuprei. Nunca matei”. Olha o tipo de argumento que se apresenta para justificarmo-nos, afastarmo-nos da fatia dos “doentes”, dos “monstros”.

Ah, se fosse só possível aplicar violência física.

Violência, longe de “não bater”, “não estuprar”, “não matar”, corresponde a qualquer ato que agrida ou retire direitos a um indivíduo. Violência pode, perfeitamente, estar impressa em um “cala a boca!” proferido…

Aí eu pergunto, e vamos ver se começa a cair a ficha: você alguma vez foi violento com uma mulher, tendo claro o conceito? Sim. Eu sei que sim.

Aplicamos formas diversas e variadas de violência o dia todo (basta um mínimo exame de consciência). Não precisa ir longe, é suficiente lembrar da feição de terror e desespero que a mulher que caminhava à sua frente na rua, à noite, moldou quanto te viu para minimamente vislumbrar a realidade.

Estupro é sim uma abominável e extrema forma de violência, mas, friamente calculando, é apenas mais uma.

Cada uma de suas formas é um degrau na escada da abominação. Não precisa pensar muito p’ra dar-se conta disso!

Em um crime, não precisamos ser agentes para decair sobre nós a culpa. Basta sermos cúmplices!

Assim, uma série de perguntinhas p’ra provar que, apenas por não agirmos bem nos tornamos cúmplices dos atuais estupradores:

  • Já “mexeu” com uma mulher na rua, ou deixou alguém mexer?
  • Já aproveitou do porre p’ra “se dar bem”, ou deixou alguém fazer?
  • Já recebeu ou compartilhou “detalhes” daquela foda, ou deixou alguém fazer?
  • Já nomeou como “facinha” aquela mulher conhecida, ou deixou alguém fazer?
  • Já compartilhou voyeurismo privado, exibindo em público a mulher que você “comeu”, ou deixou alguém fazer?
  • Já vazou conteúdo erótico roubado de celulares e computadores a que teve acesso, ou deixou alguém fazer?
  • Já consumiu “caiu na net” por Whatsapp ou portais de pornografia, ou deixou alguém fazer?
  • Já deixou de interromper uma “briga de marido e mulher”, p’ra não “meter a colher”, ou concordou que alguém fizesse?
  • Já usou de chantagem sentimental por sexo, ou não impediu alguém de fazer?
  • Já transou com a “novinha” porque estava “pedindo”, ou deixou alguém fazer?
  • Já tratou uma mulher feito carne p’ra sanar sua necessidade de sexo, ou riu de alguém que fazia?

Pois bem, meu querido. Transformá-las em pedaços de carne para consumo é abrir as trilhas na floresta da abominação. É ser causador de um crime. No mínimo seu cúmplice.

Cada um de nós carrega o peso da responsabilidade de nossos atos (e não atos) em cada ato de violência consumada, inclusive nos estupros e feminicídios, queiramos ou não.

Já que brasileiro adora uma mesóclise: culpa-te-ei, culpar-me-ei pelo que houve no estado do Rio de Janeiro.

Somos todos culpados por mantermos a cultura do estupro viva e ativa. Somos responsáveis por sua manutenção. Somos cúmplices das consequências e, assim, p’ra cavar o poço do próprio nojo, como estou sentindo agora, somos nós os estupradores.

Tão “machos” p’ra defender nossa “honra”, mas uns cagalhões p’ra defendermos uma mulher. Durmamos com essa…

3 COMENTÁRIOS

  1. Absolutamente nada com nada esse texto! Não existe cultura do roubo, do estupro, do assassinato, de nada de ruim, mas essas coisas acontecem até em países de primeiro mundo e sempre vão ocorrer! Não tente colocar as pessoas normais no patamar desses criminosos ai que não vai colar

  2. O fato de acontecer em outros países não significa que não haja. Já pensou na possibilidade de que esta cultura do estupro pode estar em outros países também, inclusive nos de primeiro mundo? Fechar os olhos para a realidade não faz com que as coisas desapareçam.
    Outra coisa, ninguém falou que exista cultura do assassinato, do roubo, etc. O foco do texto é apenas a violência contra a mulher.
    Podemos discutir estes outros temas em um próximo momento.

  3. Não existe a cultura do roubo? Quando compro um celular sem procedência, quando compro peças para meu carro de um desmanche sem procedência, quando baixo filmes da internet sem pagar pelos direitos autorais estou financiando o roubo, enquanto continuarmos nos isentando e sempre culpando o outro não vamos melhorar nosso país.

DEIXE UMA RESPOSTA